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Sustentabilidade: a Teoria do Tudo

Físicos teóricos no século passado desenvolveram uma Teoria do Tudo, ou Teoria do Todo, ou Teoria da Grande Unificação. É uma teoria científica hipotética que unificaria e procuraria explicar e conectar todos os fenômenos físicos (juntando a mecânica quântica e a relatividade geral) num único tratamento teórico e matemático. Isso inclui todas as forças, entre elas o eletromagnetismo, a força fraca e a força forte, a gravitação, com bósons de Higgs e férmions. É uma tentativa de descrever todos os campos do modelo-padrão e a gravidade como diferentes partes de um campo sobre um espaço-tempo quadridimensional.

Nesse contexto, a Teoria das Cordas aparece como a maior candidata a uma Teoria do Tudo. O nosso universo fluiria através de 11 dimensões: três espaciais (altura, largura e comprimento), uma temporal (tempo) e sete dimensões recurvadas. Uma variante da Teoria das Cordas admite até 25 dimensões.

Mas todo esse esforço científico não tem sido capaz de apresentar uma única prova experimental. A humanidade não tem atualmente tecnologia para observar as cordas (que acredita-se ter aproximadamente o Comprimento de Planck, em torno de 10−35 m).

Para complicar ainda mais, o Teorema da Incompletude de Gödel demonstra que qualquer tentativa de construir uma teoria do tudo está destinada ao fracasso. O teorema de Gödel diz que qualquer teoria matemática não trivial é inconsistente ou incompleta. Não importa quantos problemas podemos resolver, sempre haverá outros problemas que não podem ser resolvidos com as regras existentes. Ou, na melhor das hipóteses, mesmo conhecendo todas as regras, seria impossível predizer que novos padrões produzirão eventualmente novas regras.

Não dispomos de nenhuma teoria física que seja precisamente exata. Os físicos têm procedido por séries de aproximações sucessivas que dificilmente terminarão na “verdade” ou na resposta final.

Da mesma forma, a sustentabilidade é um princípio segundo o qual o uso dos recursos naturais para a satisfação de necessidades presentes não pode comprometer a satisfação das necessidades das gerações futuras, ou seja, é o princípio de um “longo prazo” indefinido.

Ao aplicarmos esse princípio a um único empreendimento, a uma indústria, por exemplo, para que a mesma seja considerada sustentável, é preciso que seja: ecologicamente correta, economicamente viável, socialmente justa e culturalmente aceitável (mera coincidência com o espaço-tempo quadridimensional da relatividade geral – altura, largura, comprimento e tempo).

Incorporado ao vocabulário politicamente correto das empresas, da mídia, do terceiro setor e até mesmo dos governos, significa então que a aplicação dos princípios do desenvolvimento sustentável impedirá que o patrimônio natural das nações seja dilapidado ou que o equilíbrio ecológico venha a ser perturbado desastradamente? Errado.

A biodiversidade existente hoje no planeta seria apenas 1% do que já existiu. A história da Terra sempre foi marcada por extinções em massa em diferentes períodos geológicos:

  1. Há 439 milhões de anos (Ordoviciano): 60% da biodiversidade extinta. Causas: aquecimento global, flutuações drásticas do nível do mar e grandes glaciações;
  2. Há 364 milhões de anos (Devoniano): 50% da biodiversidade extinta. Causas: incertas (possível resfriamento global);
  3. Há 251 milhões de anos (Permiano): 85% da biodiversidade extinta. Causas: vulcanismo exacerbado e aquecimento global;
  4. Há 200 milhões de anos (Triássico): 50% da biodiversidade extinta. Causas: incertas (possível vulcanismo exacerbado e aquecimento global);
  5. Há 65 milhões de anos (Cretáceo): 50% da biodiversidade extinta. Causas: possíveis impactos de asteroides;
  6. Em andamento: extinção do Holoceno: supostamente, a taxa de extinção de espécies no presente seria 100 a 1.000 vezes superior à média evolutiva do planeta Terra. Causas atribuíveis à influência humana e aos desastres naturais.

Mas, paradoxalmente a cada extinção em massa, sobreveio uma explosão de biodiversidade. E pasmem, no inventário da fauna do município de São Paulo, em 2010, foram catalogadas 700 espécies: 372 de aves, 135 de insetos, 85 de répteis, 83 de mamíferos e 25 de peixes. Dentre elas, 30 estão ameaçadas de extinção no Estado de São Paulo.

Parafraseando o apóstolo São Paulo quando escreveu aos romanos: “Pois o que faço, não o entendo (as complexas relações com a biosfera na defesa e melhoria do ambiente humano para as atuais e futuras gerações, juntamente com a busca pela paz, o desenvolvimento econômico e social); porque o que quero (preservação e melhoria do ambiente natural, incluindo o apoio financeiro e assistência técnica a comunidades e países mais pobres), isso não pratico; mas o que aborreço, isso faço (degradação ambiental e a poluição, direta e indireta – a mais grave e relevante).”

A sustentabilidade é um conceito indeterminado, portanto, não dispomos de indicadores objetivos e quantitativos mínimos para avaliar os resultados alcançados. O foco está nos processos de governança e na utilização das melhores práticas técnica e economicamente viáveis e disponíveis. A ausência de certeza científica não pode ser utilizada como razão para postergar medidas eficazes para prevenir a degradação ambiental quando houver ameaça de danos sérios ou irreversíveis.

Para uma indústria sustentável, não basta boa vontade, ideologia ecológica ou visão ambiental estratégica. É necessário definir uma política de sustentabilidade calcada em soluções técnicas e economicamente viáveis, com metas plausíveis e eficazes, em que as dimensões tecnológica, econômica e política possam avançar em contraposição à nefasta lógica do greenwashing (uma demão de verde) e do socialwashing (uma demão de filantropia travestida de responsabilidade social).

Todas as tentativas de fixar os limites de sustentabilidade da Terra foram inexoravelmente frustradas. No máximo consegue-se estimar os impactos futuros à luz das tecnologias e práticas presentes. Melhorias contínuas, rupturas e revoluções tecnológicas, culturais e socioeconômicas, têm sistematicamente elevado os limites da capacidade de suporte da vida humana no planeta.

O mundo não vai terminar tão facilmente. Tenha um excelente 2012!

Crédito: Decio Michellis Jr. é licenciado em eletrotécnica pela UNESP, extensão em Direito da Energia Elétrica pela UCAM, com MBA em Gestão Estratégica Socioambiental em Infraestrutura pela FIA/USP.

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