As relações regionais e os interesses das indústrias brasileiras
A América do Sul é cada vez mais importante nas estratégias empresariais brasileiras: 53% dos investimentos externos concentram-se na região, seguidos da Europa (17%), Ásia (15%), Estados Unidos (9%) e África (5%).
A expansão da internacionalização das indústrias brasileiras, de maneira geral, cresceu nos últimos anos. De acordo com a Unctad, os investimentos externos diretos, em 2009, foram de US$ 10,1 bilhões e, em 2010, o valor representou US$ 11,5 bilhões. Empresas como Vale, Gerdau, Votoratim e Petrobras destacam-se na aquisição de empresas e investimentos em diversos setores.
Percebe-se, por outro lado, um cenário de maior risco e, no caso da América do Sul, tornam-se comuns medidas locais que afetam os interesses das multinacionais brasileiras. O caso da Odebrecht no Equador, que, em 2008, foi expulsa do país, é um exemplo. O governo equatoriano alegou o não cumprimento das bases contratuais para justificar as medidas contra a empresa. A Odebrecht retornou ao Equador em 2010, após negociações e o pagamento de indenizações ao governo equatoriano.
Recentemente, foi cancelada a licença para a construção da hidrelétrica de Inambari, no Peru, que seria conduzida pelas empresas OAS, Furnas e Eletrobras. O presidente eleito, Ollanta Humala, pretende submeter a construção da hidrelétrica, estimada em US$ 4,9 bilhões, à consulta popular.
A falta de uma ação firme em defesa dos interesses da indústria brasileira é uma das principais críticas à ação diplomática brasileira. Neste primeiro semestre de 2011, a presidente Dilma demonstrou menor disposição em manter a política de cooperação regional nos mesmos termos que o governo anterior, que, para muitos, era por demasiado condescendente com os nossos vizinhos.
A adoção de licenças não automáticas para importação de carros foi vista pelos empresários com uma indicação da presidente Dilma em não aceitar as imposições da Argentina no âmbito do Mercosul.
A ação do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) ampliou as tensões no relacionamento bilateral, comprometendo o modelo de integração regional. Após semanas de negociações, os dois países concordaram em negociar ações contra as medidas protecionistas de ambos os lados. O objetivo dos governos é estabelecer um ambiente positivo e previsível aos negócios bilaterais.
Ampliar a presença regional do Brasil permanece uma das prioridades do governo Dilma. O desafio, porém, é manter a cooperação com os nossos vizinhos sem sermos vistos como predatórios e prejudiciais ao desenvolvimento local e, ao mesmo tempo, criar condições favoráveis aos investimentos das multinacionais brasileiras.
O governo Lula buscou, por meio da cooperação técnica ao desenvolvimento, oferecer uma nova visão de liderança regional, mas a articulação entre cooperação técnica e apoio aos investimentos estrangeiros diretos foi pouco explorada. A gestão Dilma necessita, paralelamente, sinalizar aos governos sul-americanos o empenho do País no desenvolvimento regional e garantir as condições para a expansão das empresas brasileiras.
O avanço nas negociações com a Argentina, bem como com o Paraguai, será importante bússola para a melhor compreensão das estratégias da gestão Dilma no âmbito regional e seus efeitos para a indústria brasileira. Por enquanto, falta uma definição clara sobre o quanto a política externa para a região se distanciará do modelo adotado pelo governo Lula.
Por muitos anos, o grande debate era como nos tornar líder regional. Já o atual quadro expõe como manter e consolidar a nossa projeção regional e internacional.
