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“A qualidade em primeiro lugar”

“O mercado está pragmático.” Pragmático além da conta,  segundo a queixa e a crítica que nos chegam do leitor Jaime Ortiz Jimenez, gerente-geral da empresa Italbronze: “ O preço é a base de grande parte das relações comerciais entre empresas, em qualquer dos setores econômicos. Evidentemente, a … redução de custos impacta diretamente na rentabilidade, mas o que está ocorrendo é uma verdadeira subversão de valores — empresas líderes, que investem fortemente para oferecer produtos e serviços de qualidade, sofrem … uma concorrência acintosa, muitas vezes despercebida pelos seus clientes … mas totalmente prejudicial a toda a sociedade.”

Embarcadas nessas tendências, segundo Jimenez, estão empresas “que, incapazes de investir em processos produtivos atualizados, em novas tecnologias ou mesmo em sistemas de qualidade, acabam mascarando seus produtos, tornando-os atrativos por serem … mais ‘competitivos’ ”.

Na mesma tendência, segundo Jimenez estão “empresas lideradas por profissionais insensíveis e até mesmo aéticos … interessados somente na curva ascendente dos gráficos de vendas … pouco valorizando os benefícios intrínsecos de seus produtos e serviços, depositando suas forças na habilidade negocial”.

Na visão do leitor, o resultado é que o cliente balança indeciso entre o discurso que enfatiza a economia imediata e os benefícios da qualidade nem sempre fáceis de medir. Sua decisão, portanto, terá um forte componente lotérico.

O que fazer? O leitor se pergunta e responde: “Sem dúvida, a melhor perspectiva é o investimento declarado e comprovado em qualidade. Um mercado maduro, competitivo, é aquele no qual a balança pende para as empresas que oferecem garantias de seus produtos e serviços … ancorado em … regras e referências niveladas ‘por cima’. Isso significa que, em princípio, empresários, líderes e decisores devem apostar no ganho conjunto do mercado.”

E conclui a carta que nos enviou propondo teses e erguendo sua bandeira:

“É mister esse ganho de consciência, propagando a todos os setores da economia que atitudes evolucionistas não têm nada a ver com a ‘fome por lucros’ … com a concorrência predatória. Atitudes evolucionistas passam pela coerência … pela determinação em se produzir cada vez mais e melhor … Como atingir esse estado ideal? Através da educação, da discussão dos valores, da propagação dos benefícios das decisões e ações éticas.”

E finaliza: “Soa melhor a qualidade em primeiro lugar do que o preço em primeiro lugar.”

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Exportação – o desafio dos 3%

A pauta exportadora do País precisa – e com urgência – ampliar a participação de bens industriais. É neles que está o maior valor econômico agregado e, portanto, é com eles que o esforço exportador obtém maior recompensa.

Se queremos alcançar sucesso nessa ampliação, governo e indústrias exportadoras precisam organizar sua estratégia para apropriar-se do maior número possível de oportunidades criadas por um mercado mundial competitivo e dinâmico. Em resumo, é preciso adotar um viés global, um “pensar grande”, sobretudo um pensar grande que inclua os países emergentes.
Segundo previsões do Fundo Monetário Internacional-FMI, até 2015, a participação dos países emergentes, Rússia, Brasil, China e Índia, no comércio internacional passará, dos 28% registrados em 2005, para 33% em 2015.
A má notícia é que o Brasil – ainda segundo as perspectivas do FMI –
vai manter seus 3% de participação, caso se limite ao que está fazendo hoje.
A parcela de participação perdida pelo chamado G7, cerca de 6% do comércio mundial, será abocanhada exclusivamente pela China e Índia.
Os fluxos de importação e exportação de bens industriais e industrializados estão mudando, e novos players estão ingressando no jogo. Em resumo, competição e oportunidades crescem simultaneamente, e analistas da economia internacional mencionam como países que merecem ser acompanhados pelo Brasil, além dos seus concorrentes do BRIC, México, Coreia do Sul, Tailândia, África do Sul, Turquia, Malásia, Indonésia e Cingapura.
São esses os países que dão melhor resposta aos critérios de desenvolvimento potencial, importância econômica, infraestrutura tecnológica e crescimento demográfico.
Encontrar uma hierarquia dentro desse grupo, para melhor focar atenção e recursos, é parte do desafio exportador brasileiro. Que se resume no dilema de contentar-se com os 3% do crescimento vegetativo do mercado internacional, ou fazer jus realmente à condição de emergente.
Isso sem abandonar os grandes mercados europeu e norte-americano, que, apesar das perdas relativas, ainda são, disparados, os melhores mercados para nossos produtos industriais. Sem eles não se pode sonhar nem com os 3%.

Obstáculos aos investimentos

5, agosto, 2010 Deixar um comentário

A performance positiva da economia brasileira no enfrentamento da crise mundial, seu ritmo este ano e as boas perspectivas para 2011 não significam a consolidação do crescimento sustentado. Por isto mesmo, devemos analisar com realismo e prudência a evolução de 9% do PIB no primeiro trimestre, em relação a igual período de 2009, que acaba de ser anunciada pelo IBGE. Os indicadores médios não são nada excepcionais. Assim, não se justificam as sinalizações que vêm sendo feitas pelo governo no sentido de tirar o pé do acelerador para evitar o superaquecimento e as consequentes pressões inflacionárias. O que precisamos, sim, é solucionar alguns gargalos para que o País possa assimilar índices cada vez mais substantivos de expansão.

Nesse sentido, é necessário enfatizar o alerta de que o crescimento econômico nacional continua muito atrelado ao consumo, carecendo da base mais consistente dos investimentos e da poupança. Em 2009, a Formação Bruta de Capital Fixo, índice aferidor dos investimentos produtivos, somou R$ 525,8 bilhões, significando queda de 9,9% na comparação com 2008. Este ano, segundo estimativas, deverá elevar-se em 18%.

A despeito desse aumento do importante indicador, o volume de recursos segue aquém do patamar de sustentabilidade do crescimento econômico a taxas médias anuais superiores a 5%. Então, o Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp decidiu consultar as empresas sobre a questão, realizando a Pesquisa de Obstáculos ao Investimento. Foram ouvidas 318 indústrias. As respostas são taxativas e inequívocas no diagnóstico de graves empecilhos.

A elevada carga tributária é a principal barreira para as empresas, independentemente de seu porte, por incidir de modo direto sobre os próprios investimentos, como apontam 76% dos entrevistados, e principalmente por retirar recursos que poderiam ser aplicados em empreendimentos produtivos, conforme 87% das respostas. A percepção das indústrias referenda o quanto é nocivo o fato de o Brasil ser um dos poucos países que tributam investimento.

Outro fator limitante apontado pelo estudo é o juro elevado, que aumenta os riscos econômicos do investimento, afetando-o por três vias: ao agravar as despesas financeiras, minando os recursos a serem investidos; ao inibir a demanda dos produtos industriais; e ao estimular a especulação financeira. Se os juros no Brasil fossem semelhantes aos dos seus concorrentes internacionais, a indústria pouparia R$ 58,2 bilhões, viabilizando-se ampliação de 38,3% do volume de investimentos do setor. Nossas taxas reais, ou seja, descontada a inflação, mesmo quando atreladas à TJLP, chegam a 6% ao ano, contra 2,5% na média das nações com as quais competimos.

Impostos e juros escorchantes são os ingredientes do terceiro grande obstáculo, em especial para as pequenas e médias empresas: a escassez de recursos próprios, carência ainda não sanada integralmente pelas linhas de crédito do BNDES, devido à dificuldade de acesso provocada pela burocracia intransponível, exigências e garantias exageradas. Além disso, diante da impossibilidade de utilização dos fundos públicos garantidores (o BNDES-FGI ainda está em processo de habilitação), os bancos repassam recursos em valores inferiores aos demandados, a fim de diminuir riscos.

É preciso, também, ampliar os sistemas de informação sobre linhas de apoio ao investimento e os fundos de investimentos, os quais são apontados, principalmente pelas pequenas empresas, como obstáculos significativos à aplicação de recursos em empreendimentos produtivos. Finalmente, a pesquisa indicou o empecilho do câmbio valorizado, principalmente para as empresas exportadoras, pois reduz a competitividade dos produtos nacionais. Afinal, associado à baixa qualidade da infraestrutura, encarece muito os nossos produtos no mercado externo.

Exemplo real e conclusivo de como todos esses problemas afetam a manufatura encontra-se na indústria de transformação do plástico. Constituído por aproximadamente 11.500 empresas, na quais trabalham cerca de 330 mil brasileiros, o setor apresenta déficit em sua balança comercial já próximo de um bilhão de dólares. Somente em 2009, o País importou US$ 2,1 bilhões em produtos plásticos transformados.

Portanto, o elevado custo para produzir e a dificuldade de investir para ganhar mais competitividade, conforme indicou a pesquisa da Fiesp, precisam ser solucionados. Caso contrário, o crescimento econômico nacional continuará assentado sobre bases muito frágeis, o que, convenhamos, é um imenso risco na volátil e caprichosa economia contemporânea.    

Por José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Plástico (Abiplast) e diretor titular do Departamento de Competitividade e Tecnologia da FIESP.

A confiança está de volta

Muitas discussões sobre o desempenho da indústria nacional ganharam destaque na imprensa e em reuniões desde que a crise econômica eclodiu em outubro de 2008. No final deste primeiro semestre, contudo, já é possível à indústria exibir uma boa recuperação promovida pelos incentivos governamentais e pelo próprio esforço em rever e ajustar processos internos.

A recente prorrogação por seis meses da linha Finame-PSI (Programa de Sustentação do Investimento), de julho até dezembro de 2010, também dará um novo fôlego para que a indústria volte a investir. Os recursos disponibilizados serão da ordem de R$ 80 bilhões e os juros passarão de 4,5% para 5,5% fixos ao ano, considerados, ainda assim, competitivos.

Esses incentivos e a perspectiva de retomada de grandes projetos estão começando a acelerar a indústria. Segundo a Abimaq – Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos, o faturamento nominal do setor de máquinas e equipamentos fechou o primeiro trimestre de 2010 com alta de 19,9% em relação ao mesmo período de 2009. Um dos setores que registraram maior crescimento foi o de máquinas para plástico, com índice de 99,8% no acumulado em 2010 comparado a 2009.

Considerado o sétimo maior da economia brasileira, o setor de transformação de plástico está fortemente associado ao crescimento da economia e de toda a indústria em geral, já que o plástico participa da cadeia produtiva de quase todos os segmentos da indústria.

O segundo semestre se inicia e o setor de plástico tem novas e promissoras perspectivas. O setor prevê, por exemplo, crescimento de 5% em 2010, similar ao PIB. Mais otimista, o setor de eletroeletrônica estima 11% de crescimento. Qualquer que seja o número, é importante registrar que a confiança da indústria foi recuperada, como ficou demonstrado no último resultado da Pesquisa do Sensor Fiesp, pois atingiu 57,7 pontos em março – o melhor desde 2006.

Saber o que olhar

Sobre a Economia pode-se dizer o mesmo que já se disse da Política. Tal como as nuvens, ambas oferecem visões diferentes a cada instante. As diferenças que exibem são acrescentadas àquelas que observadores imersos nas paixões do processo político-eleitoral encontram de tanto desejar encontrar. Em resumo, quando as duas coisas se somam, como neste ano de eleições, é preciso encontrar um ponto de apoio menos instável, sobre o qual podemos construir as decisões da rotina profissional.

Um apoio desse tipo podemos encontrar na indústria automobilística, tanto pelo próprio peso que possui na economia como pelas importantes cadeias produtivas que ela lidera e estimula antes e depois de colocar seus produtos no mercado.

As associadas Peugeot – Citroën, mais a Mitsubishi e a Renault, por exemplo, vão investir cerca de R$ 3,2 bilhões nos próximos anos, boa parte deles nos próximos dois anos. Os investimentos somados da Ford, General Motors e Volkswagen, por sua vez, alcançam R$ 13 bilhões. A Toyota constrói nova fábrica e aplica R$ 1 bilhão, de olho no mercado estimado de 4 milhões de carros nos próximos três anos. A Hyundai trabalha na mesma direção e está erguendo uma nova fábrica. Basta imaginar, a partir desses números, a demanda de máquinas, equipamentos e serviços que serão indispensáveis para transformar esses investimentos em produtos nos pátios das fábricas e dos revendedores.

Um segundo e igualmente confiável ponto de apoio é a Feira da Mecânica, que acontece nesta primeira quinzena com número excepcional de expositores e perspectivas ainda melhores de negócios.

Em resumo, é melhor observar o mercado e seus números do que confiar na meteorologia político-eleitoral.

Crescer com qualidade

8, abril, 2010 Deixar um comentário

Não é possível crescer sem investir. Por isso, o Brasil, que pretende alcançar a quinta posição entre as maiores economias do mundo nas próximas duas décadas, tem urgência em sanar deficiências históricas nos setores de logística, energia, telecomunicações e habitação.

A falta de uma infraestrutura adequada é um dos fatores que mais atrapalham o crescimento do País. Exemplo disso é o tanto de perdas que enfrentamos no agronegócio: o Brasil figura hoje como um dos maiores exportadores mundiais de alimentos, mas grande parte de sua produção é desperdiçada nos processos de colheita, transporte, estocagem, beneficiamento e comercialização. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) coloca o Brasil como um dos dez países que mais desperdiçam alimentos: quase 35% da nossa produção agrícola, o que equivale a 10 milhões de toneladas de comida, vão literalmente para o lixo a cada ano.

Outro levantamento, feito pela Secretaria de Abastecimento e Agricultura do Estado de São Paulo, mostrou que a quantidade de alimentos não aproveitados ao longo da cadeia produtiva representa em torno de 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Traduzido em reais, o rombo é de R$ 17,25 bilhões no faturamento do setor agropecuário nacional. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), por sua vez, estimou que as perdas de grãos no País, ao longo de toda a cadeia produtiva, correspondem a mais ou menos 10% da produção de arroz, feijão, milho, soja e trigo.

Segundo o IBGE, quase 70% das cargas brasileiras são deslocadas pelo modal rodoviário, que não é o mais apropriado para distâncias superiores a 300 km. Os grãos que vemos caídos nas beiras das estradas que cortam o País não deixam dúvidas quanto à veracidade dessa afirmação. Daí a relevância dos investimentos na melhoria do sistema ferroviário (reconhecido como o mais adequado para se percorrer distâncias entre 300 km e 500 km) e nos meios de transporte fluviais, que são rápidos, econômicos e sobressaem como solução eficiente para cobrir distâncias acima de 500 km.

Vale lembrar que, apesar de a tecnologia agroindustrial brasileira ser das mais desenvolvidas do mundo no tocante à produção, são poucas as fazendas produtoras que dispõem de armazéns. A simples existência desse tipo de recurso reduziria o desperdício: em vez de haver, como hoje, o transporte para o local de estocagem, e deste para o local de beneficiamento, haveria uma etapa a menos no processo. Logo, as perdas a ela associadas seriam dirimidas.

Outro setor em franca expansão, graças aos investimentos em moradia popular e à proximidade de eventos como a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas de 2016, que impõem a necessidade de realizar construções e reformas, é o da construção civil.

No Brasil, a indústria de construção responde por aproximadamente 7% do Produto Interno Bruto (PIB) e absorve 6,5% da população economicamente ativa (PEA), exercendo um forte papel indutor na economia. No entanto, esse segmento, que é reconhecidamente um grande gerador de empregos e riquezas, também tem seu rendimento afetado pelo desperdício de materiais. Estudo elaborado pelo Departamento de Engenharia de Construção Civil da Poli/USP, com amostragens de canteiros de obras de 12 estados brasileiros, averiguou que há desperdício de mais da metade do material empregado nas construções. O uso abusivo também ocorre em relação à água e à energia. Claro que essa quantidade de perdas causa aumento de custos e impacto negativo no desempenho do setor.

Ainda de acordo com o estudo da Poli/USP, a formação deficitária dos profissionais que atuam no setor é uma das raízes do problema. Grande parte dos trabalhadores desconhece as técnicas mais modernas de construção e empregam métodos tradicionais e ultrapassados. Erros de cálculo e a preferência pelo “olhômetro” em detrimento do cálculo acurado são fatores que interferem na qualidade final da produção.

É por isso que, mais do que alocar recursos para grandes obras, o Brasil deve planejar e dar prioridade à busca pela eficiência. Somente assim conseguiremos superar os déficits que ainda nos impedem de ocupar o lugar que merecemos na galeria dos países mais avançados do mundo.

Por Eduardo Pocetti, CEO da BDO, uma das cinco maiores empresas do mundo em auditoria, tributos e advisory services.

Amigos, amigos, negócios à parte!

2, abril, 2010 Deixar um comentário

A proximidade do prazo para desincompatibilização de cargos dos postulantes à Presidência da República nas eleições de outubro próximo marca o início dos debates entre candidatos e empresários acerca dos projetos e segmentos da economia nacional a serem priorizados no futuro plano de governo. A iniciativa privada já emitiu sinais de que o foco deve concentrar-se em políticas capazes de promover o reaquecimento da produção industrial e a ampliação do crédito, bem como a retomada dos investimentos no setor de infraestrutura. Todavia, chamam especial atenção a disposição e o interesse da classe empresarial em reestruturar a política de comércio exterior brasileira, tendo empresários como gestores na futura composição do governo.

A boa notícia é que esse processo não seria prejudicado por questões como a retaliação de produtos dos Estados Unidos, autorizada pela Organização Mundial do Comércio (OMC) devido ao desrespeito de Washington à sua determinação de extinguir os subsídios ao algodão. Esta é uma disputa trivial entre duas economias, travada segundo as mais civilizadas normas e no âmbito de legítimo organismo multilateral. Ademais, o episódio abre imensa oportunidade de negociação, com boas perspectivas de redução tarifária na alfândega norte-americana para diversos itens da pauta brasileira de exportações.

De todo modo, paira no ar e no ambiente empresarial indisfarçável preocupação quanto à capacidade brasileira de manter e/ou continuar ampliando as suas exportações. Parte do ceticismo pode ser atribuída ao fato de os Estados Unidos e a União Européia, grandes compradores, ainda estarem enfrentando resquícios e efeitos colaterais da crise mundial. No entanto, as dúvidas parecem ter como principais causas alguns retrocessos na política comercial e a persistente contaminação por interesses políticos da estratégia de comércio exterior do País.

Embora a Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento mantenha-se otimista com a projeção de US$ 172 bilhões em exportações para 2010, é inevitável recorrermos à avaliação do desempenho da corrente de comércio brasileira, que, em 2009, registrou queda de 25% em relação ao ano anterior, somando pouco mais de 280 bilhões de dólares. É fato que a crise internacional teve impacto negativo direto no fluxo do comércio global. Contudo, vale reconhecer que o Brasil mostrou-se extremamente vulnerável em três aspectos estruturais determinantes, que devem compor a agenda de seu comércio exterior nos próximos anos: competitividade, acesso a mercados e eficiência de gestão.

No que tange à competitividade, seu equacionamento implica a desoneração tributária, que pode ser feita a curtíssimo prazo, o resgate dos gargalos da logística e da infraestrutura e o incremento da inovação tecnológica e produtiva. Quanto à ampliação do acesso a mercados, pressupõe-se atuação mais assertiva nas negociações e acordos comerciais (tanto multi, quanto bilaterais) e a inserção de produtos e serviços com base de distribuição e comercialização em mercados estratégicos para o comércio exterior, o que resultaria na redução do espaço entre os produtos brasileiros e seus consumidores. Finalmente, é preciso haver mais sinergia na gestão da política comercial, com um direcionamento compartilhado entre o Governo Federal e a iniciativa privada.

Fazendo essas lições de casa, o Brasil poderia até mesmo superar de modo significativo a meta de exportações estabelecida para 2010. O que não falta ao País é diversidade e qualidade de produtos agroindustriais, bens de capital, semimanufaturados, manufaturados e outros itens de altíssimo valor agregado, como softwares, aviões, produtos químicos e médico-hospitalares. Ademais, a combinação da maior competitividade e organização dos segmentos de infraestrutura e logística com um conjunto de ações estruturadas dos setores público e privado também reduziria o impacto das oscilações cambiais nas vendas externas.

É legítimo o esforço do Governo Federal em criar mecanismos de estímulo às exportações brasileiras. Bom exemplo disso foi a redução da carga tributária sobre insumos utilizados em bens voltados às vendas externas, bem como o pacote de incentivos ao exportador, a ser anunciado pelo Ministério da Fazenda nas próximas semanas, incluindo a criação do Eximbank do Brasil. Certamente, esse mecanismo será importante para a alavancagem da produção industrial, além de garantir mais segurança ao exportador em relação às oscilações do mercado.

Entretanto, devemos concentrar esforços em retomar a identidade do comércio exterior brasileiro, focando em resultados, a partir de uma estratégia pautada pela conquista de novos mercados e, sobretudo, na agregação de valor à pauta de exportações. Como se observa, é inútil tergiversar. Ninguém perderá mercados em decorrência do exercício diplomático e do debate civilizado com as nações amigas. Porém, é preciso ficar claro que, quando falamos de exportações, devemos ser pragmáticos, pois estamos tratando de negócios!   

Por Juan Quirós, presidente do Grupo Advento e vice da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e da ABDIB (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base).  

Reencontro da confiança

A confiança dos setores produtivos praticamente quintuplicou entre janeiro de 2009 e janeiro de 2010. É o que diz o Indicador Sensor Econômico calculado pelo respeitado Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada–Ipea. A renovada confiança no desempenho da economia brasileira tem outros números que refletem o ânimo com o qual os setores produtivos iniciam 2010.

O Informe Conjuntural da Confederação Nacional da Indústria afirma que o País crescerá 5,5%, mas o setor industrial crescerá 7%, liderando o processo de desenvolvimento em 2010. Os motores desse crescimento serão os significativos aumentos nos investimentos e o consumo no mercado interno, que sairá de 3,7% em 2009 para 5,6% este ano. Tudo viabilizado pelo acréscimo da capacidade instalada da indústria, do já mencionado aumento da confiança dos agentes produtivos e da disponibilidade de financiamentos de longo prazo.

A redução dos custos também terá influência importante no desempenho esperado da indústria. Ela será determinante para a competitividade exportadora do País, empenhado em deter a expansão chinesa em mercados importantes para o Brasil, como Estados Unidos, México e Argentina. Pelo menos parte dessa redução de custos virá da maior produtividade, desde que as crises ensinam às indústrias que podem fazer mais e melhor com menos recursos. Em outras palavras, a recuperação da produção não recria os mesmos postos de trabalho.

A análise da Federação das Indústrias de São Paulo registra, em primeiro lugar, que o Brasil emergiu da crise global como parceiro confiável. A entidade prevê investimentos externos na ordem de US$ 35 a 45 bilhões e um crescimento superior a 6%. Para esses números devem contribuir os projetos relacionados aos dois grandes eventos esportivos previstos – a Copa e a Olimpíada – a construção do Trem de Alta Velocidade e a conclusão de obras do PAC. Nesse contexto positivo a indústria excederá o País, crescendo 8,5%. A comparação destas e da absoluta maioria das prospecções divulgadas convergem para um 2010 promissor.

Nesse clima de renovada confiança no desempenho industrial do País vai acontecer a 28ª Feira Internacional da Mecânica, entre 11 e 15 de maio próximo. São esperados 120 mil visitantes e negócios à altura dos prognósticos, que pouco diferem entre si e concordam na visão de um ano positivamente memorável para a indústria.

Alguns números que apoiam os votos de um próspero 2010

Exatos 1.440 profissionais da indústria, usuários do sistema NEI, concordaram, entre junho e agosto de 2009, em participar de um estudo sobre as intenções de compra da indústria nos 12 meses seguintes.

Os resultados têm um interesse especial porque o País e o mercado industrial, em particular, sentiam os efeitos da crise internacional, e os sinais ainda muito tímidos da reação econômica não estimulavam projetos de grande envergadura.

Os resultados do estudo, porém, foram surpreendentemente positivos. Em junho de 2009, 89% das empresas dos respondentes iriam manter ou mesmo aumentar seus investimentos no período, ou seja, entre julho de 2009 e junho deste ano.

Em meados de 2009 já estavam claros os componentes da fórmula anticrise elaborada pelo governo – ampliação do crédito, redução de juros, renúncias fiscais. Os números do estudo sugerem fortemente que os resultados iniciais da aplicação da fórmula bastaram para recriar na comunidade industrial a confiança necessária em um crescimento mais robusto da economia neste ano que começamos.

As previsões mais acreditadas falam em um crescimento do PIB entre 4 e 5%,

cifra bastante factível se depender do desempenho que se pode projetar para a indústria a partir do estudo de Intenção de Compras 2009/2010.

Afinal, os investimentos das empresas representadas pelos 1.440 profissionais que contribuíram para esse estudo somaram cerca de US$ 284,5 milhões, distribuídos entre julho de 2009 e julho deste ano. E eles representam apenas 1,7% dos usuários do sistema NEI.

O estudo nos permite, com mais do que razoável segurança, desejar um próspero 2010 para todos os que participam da comunidade industrial.

Lições e opiniões para lembrar em 2010

Neste final de ano cabe, com mais razões do que no passado, cumprimentar todos os que contribuíram para que o ano de 2009, que prenunciava catástrofe econômica sem precedentes, termine com uma economia governável e promissora. Um cumprimento que inclui todos os brasileiros.

foto_dialogo_dez_09A fórmula usada pelo Brasil para alcançar os resultados mencionados combinou renúncias fiscais, aumento do crédito disponível com simultânea redução de juros e fortalecimento do mercado interno via gastos governamentais. A fórmula funcionou e, já no segundo trimestre do ano, o PIB revelava a reação econômica.

Essa fórmula, aliás, com variações de grau apenas, foi e está sendo aplicada nos países mais afetados pela crise, entre os quais os Estados Unidos, França, Alemanha, Itália e Japão, nesses casos com resultados mais modestos do que os obtidos no Brasil, nem tanto pelas diferenças de dosagem da fórmula ou virtudes insuspeitadas, e mais pela estrutura econômica daqueles países, cujo equilíbrio econômico está fortemente associado às suas exportações.

No início de outubro, durante nossa cobertura da EMO – a principal feira mundial de máquinas-ferramenta – ouvimos de empresas europeias e norte-americanas análises mais otimistas. Acreditava-se então que a economia da maioria dos países industrializados já tinha obtido suficiente equilíbrio, nterrompido a série decrescente dos respectivos PIBs e iniciado a fase de recuperação.

Sobreviviam, porém, alguns temores de recaída, e os presidentes de associações industriais europeias, reunidos em Milão a propósito da feira e da crise, pediam – quase exigiam – de seus governos a extensão, por tempo indeterminado, dos estímulos fiscais e das facilidades de crédito adotadas. Tudo muito parecido com as estratégias e reivindicações das entidades que representam a indústria em nosso País.

No início de novembro, as boas notícias da economia norte-americana ampliaram as esperanças de que o mercado global renascerá com o vigor já demonstrado em passado recente.

Também ouvimos dos mesmos dirigentes das associações industriais uma opinião unânime – a tranquilidade futura passa necessariamente pela disciplina dos mercados financeiros, incluída uma redução dos spreads bancários, e pela aplicação mais eficiente dos recursos oficiais, permitindo aumento dos investimentos com simultânea redução de impostos.

Esse melhor dos mundos visualizado pela indústria ouvida em Milão depende também de forte apoio empresarial à inovação. Ela será o diferencial e ditará o ritmo da recuperação de cada país.